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Taxa de esforço do crédito à habitação: o que acontece quando a taxa fixa de 2 anos termina

Oito em cada dez créditos à habitação contratados em Portugal este ano têm taxa fixa durante apenas dois anos, e não durante uma década inteira como na Alemanha ou na França — e o Banco de Portugal já tem dados sobre o que acontece quando essa fixação acaba.

Mulher sentada à mesa da cozinha, numa manhã de sol, a rever um extrato do crédito à habitação.

A taxa de esforço do crédito à habitação é a percentagem do rendimento líquido mensal de uma família que fica comprometida com prestações de crédito — é o número que o banco olha antes de dizer que sim a um empréstimo. Em Portugal, esse número está hoje sob mais pressão do que a maioria dos mutuários percebe, e a razão não é apenas a subida da Euribor em si, mas o prazo com que quase todos contrataram proteção contra ela.

Em termos simples: a taxa de esforço equivale aos encargos mensais com crédito a dividir pelo rendimento líquido do agregado, vezes 100. O Banco de Portugal recomenda que esse valor não passe os 45% do rendimento — mas uma fixação de taxa que acaba ao fim de dois anos pode empurrar a prestação, e com ela a taxa de esforço, para cima sem grande aviso prévio.

É esse o ponto central de um alerta recente do Banco de Portugal. Em muitos países europeus, fixar a taxa de juro de um crédito à habitação significa fixá-la durante uma década ou mais — é o que acontece tipicamente na Alemanha e na França. Em Portugal, fixar passou a significar, na prática, outra coisa: dois anos.

A taxa mista: fixa por fora, variável por dentro

A maioria absoluta do crédito à habitação contratado em Portugal nos últimos anos não é, tecnicamente, nem fixo nem variável — é taxa mista: um período inicial com taxa fixa, seguido de um período (normalmente o resto do prazo do empréstimo, que pode ir até 30 ou 40 anos) em que a prestação passa a acompanhar a Euribor. Entre 2019 e 2021, esta modalidade representava apenas cerca de 10% do montante emprestado em novos créditos; no primeiro semestre de 2026, já representava cerca de 80%, segundo dados do Banco de Portugal [1]. Em junho de 2026 chegou a um máximo de 85% dos novos contratos [5].

O problema está no "por fora". O prazo da fixação inicial caiu de forma acentuada entre 2021 e 2023 — exatamente quando a taxa mista se tornou dominante — e estabilizou perto de uma mediana de dois anos [1]. Isso significa que um mutuário português protegido por taxa mista fica exposto a alterações da Euribor muito mais cedo do que um mutuário alemão ou francês, onde as fixações de uma década ou mais são a norma [1].

O que mostra o Banco de Portugal sobre o "depois"

O supervisor já tem números sobre o que acontece quando a fixação inicial termina. Entre os contratos de taxa mista celebrados em 2023 que já tinham transitado para o período de taxa variável até março de 2026, cerca de 20% registaram uma renegociação na proximidade da data de transição [2]. E em cerca de 40% desses casos, a renegociação parece ter resultado numa nova fixação da taxa de juro por um período adicional de pelo menos dois anos [2] — ou seja, muitos mutuários preferiram voltar a pagar para ter previsibilidade, em vez de aceitar a prestação a flutuar com a Euribor.

Cliente ao balcão de uma agência bancária a falar com um gestor sobre o crédito à habitação.

O Banco de Portugal sublinha que estes números ainda são uma amostra pequena, porque a maioria dos créditos de taxa mista contratados desde 2023 não tinha, até março de 2026, atingido o fim do seu período inicial [2]. Mas a tendência que se vê nestes primeiros casos — refixar com prestação mais alta — não surpreende: a Euribor a 12 meses subiu para 3,379% em setembro de 2026, um novo máximo desde julho de 2024, depois de o Banco Central Europeu ter subido as taxas diretoras pela segunda vez este ano, a 10 de setembro [4]. No início de 2026, a mesma taxa andava perto de 2,2%.

A taxa de esforço, outra vez, e o novo limite de 45%

É aqui que a taxa de esforço volta a entrar na equação. Desde 1 de agosto de 2026, o Banco de Portugal recomenda que os bancos só aprovem crédito se a taxa de esforço de todos os empréstimos de um agregado, depois de simular uma subida da taxa de juro, não superar os 45% do rendimento líquido mensal — antes, o limite recomendado era 50% [3]. Essa simulação, chamada teste de esforço à taxa de juro, soma à prestação entre 0,5 e 1,5 pontos percentuais, dependendo do prazo do crédito [3].

O mesmo raciocínio aplica-se, na prática, a quem já tem crédito: se a prestação sobe quando a fixação acaba, a taxa de esforço sobe com ela, mesmo que o banco não volte a fazer as contas. Ninguém é obrigado a recalcular a taxa de esforço de um crédito em curso — mas é exatamente por isso que vale a pena fazê-lo por conta própria antes da data chegar, e não depois.

Quanto custam hoje as diferentes modalidades

Modalidade Peso nos novos créditos (jun. 2026) Taxa média Prazo de fixação típico
Taxa mista 85% 2,80% (período fixo inicial) ~2 anos, depois variável
Taxa variável 13% 3,14% Revista a cada 3, 6 ou 12 meses
Taxa fixa (todo o prazo) 2% 3,73% Todo o empréstimo (até 30-40 anos)

Fonte: dados do Banco de Portugal citados em [5].

Rua residencial em Porto ao fim da tarde, com prédios de habitação e um letreiro de venda de casas ao fundo.

A taxa mista é, hoje, a mais barata à entrada — o que explica porque domina o mercado. Mas é uma vantagem temporária por definição: aplica-se só ao período inicial, e é precisamente esse período que está a ficar mais curto.

Antecipar o choque: o papel das apps de gestão financeira

Simular hoje o que a prestação vai custar quando a fixação acabar é um exercício de aritmética simples — mas só é útil se for feito com antecedência suficiente para agir, e não na véspera. É aqui que as aplicações de gestão financeira, como categoria, têm um papel que vai além de "ver o saldo": ajudam a olhar para a despesa fixa da casa dentro do orçamento mensal completo, a perceber o que acontece a esse orçamento se a prestação subir 50€ ou 100€, e a antecipar, antes do banco, se a taxa de esforço se vai aproximar do limite recomendado.

No AtivaMoney, essa fotografia mensal — quanto do rendimento vai para a casa, quanto fica livre, como evolui mês a mês — está no centro da aplicação, sem precisares de exportar extratos ou preencher folhas de cálculo, graças à ligação direta às tuas contas por Open Banking. Um simulador dedicado ao impacto de uma subida da prestação na taxa de esforço está no roteiro, mas ainda não existe; o que já podes fazer hoje é categorizar a prestação do crédito como despesa fixa e acompanhar, mês após mês, que margem te sobra antes de ela mudar.

Checklist: antes de a tua fixação acabar

  1. Confirma a data exata em que termina o período de taxa fixa do teu crédito — está no contrato, não numa estimativa de memória.
  2. Simula a prestação em taxa variável com a Euribor atual mais o spread do teu contrato, não com o valor de há dois anos.
  3. Recalcula a tua taxa de esforço com essa nova prestação e compara com o limite de 45% recomendado pelo Banco de Portugal [3].
  4. Contacta o banco com antecedência — renegociar ou refixar antes da data de transição dá-te mais opções do que fazê-lo depois.
  5. Compara com outras instituições: a portabilidade de crédito à habitação existe precisamente para isto.
  6. Revê o orçamento mensal à procura de margem, antes de a prestação subir — não depois.

Isto é informação educativa, não aconselhamento financeiro — a decisão sobre refixar, mudar de banco ou aceitar a taxa variável depende da situação concreta de cada agregado.

Perceber o que a Euribor acima de 3% já está a fazer à prestação da casa e o que motivou a última subida das taxas de juro do BCE ajuda a enquadrar porque é que este alerta do Banco de Portugal chega agora, e não há seis meses.

Perguntas frequentes

O que é a taxa de esforço do crédito à habitação?

É a percentagem do rendimento líquido mensal de um agregado familiar que fica comprometida com prestações de crédito, habitação incluída. Calcula-se a dividir os encargos mensais com crédito pelo rendimento líquido total, a multiplicar por 100. O Banco de Portugal recomenda, desde agosto de 2026, que esse valor não supere os 45% do rendimento, depois de simulada uma subida da taxa de juro.

O que é a taxa mista no crédito à habitação?

É um crédito com um período inicial de taxa fixa — hoje, em média, cerca de dois anos em Portugal — seguido de um período muito mais longo em que a prestação passa a acompanhar a Euribor, como no crédito a taxa variável. Em 2026 já representava entre 80% e 85% do montante dos novos créditos à habitação.

O que acontece quando termina a taxa fixa inicial de um crédito a taxa mista?

A prestação passa a seguir a Euribor em vigor, mais o spread do contrato. Segundo o Banco de Portugal, 20% dos créditos de 2023 que já tinham feito essa transição até março de 2026 foram renegociados perto da mudança, e em 40% desses casos isso significou fixar a taxa outra vez, geralmente com uma prestação mais alta.

Qual é o limite recomendado para a taxa de esforço em 2026?

Desde 1 de agosto de 2026, o Banco de Portugal recomenda um máximo de 45% do rendimento líquido mensal, depois de simulada uma subida da taxa de juro entre 0,5 e 1,5 pontos percentuais, dependendo do prazo do crédito. Antes, o limite recomendado era 50%. É uma recomendação, não uma lei, e admite exceções limitadas.

Compensa fixar a taxa outra vez quando a fixação inicial acaba?

Depende da prestação resultante e da margem no orçamento de cada agregado. Dos créditos de 2023 renegociados perto da transição, quase metade voltou a fixar a taxa por pelo menos mais dois anos, normalmente pagando mais do que no período inicial — sinal de que muitas famílias preferem previsibilidade a esperar por uma Euribor mais baixa.

Referências

  1. Taxa mista do crédito à habitação dispara de 10% para 80% em três anos No 1.º semestre de 2026 a taxa mista representava cerca de 80% do montante de novos créditos à habitação; o prazo da fixação inicial estabilizou perto de uma mediana de dois anos, muito abaixo dos prazos superiores a dez anos comuns na Alemanha e na França.
  2. 20% dos créditos a taxa mista contratados em 2023 foram renegociados perto da transição para taxa variável cerca de 20% registaram uma renegociação na proximidade da data de transição. Em cerca de 40% desses casos, a renegociação parece ter resultado numa nova fixação da taxa de juro por um período adicional de pelo menos dois anos.
  3. Banco de Portugal altera limite da taxa de esforço no crédito à habitação para 45% mas mantém taxa de stress A partir de 1 de agosto de 2026, o limite recomendado da taxa de esforço (DSTI) passou de 50% para 45% do rendimento líquido mensal, aplicado depois de um teste de esforço que soma entre 0,5 e 1,5 pontos percentuais à taxa de juro, dependendo do prazo do crédito.
  4. Euribor sobe a seis e a 12 meses para novos máximos desde o verão de 2024 subiu, para 3,379% — um novo máximo desde julho de 2024, depois de o BCE ter subido as taxas diretoras em 25 pontos base a 10 de setembro, pela segunda vez este ano.
  5. Taxa mista bate novo recorde e já representa mais de 85% dos novos créditos habitação 85% dos novos empréstimos para compra de casa foram contratados com taxa mista, a uma taxa média de 2,80%, contra 3,14% na taxa variável e 3,73% na taxa fixa.